MEUS INCENTIVADORES- GOSTARAM E FICARAM!!

terça-feira, junho 23, 2015

Então queres ser um escritor?


se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa,
e nunca houve.

CHARLES BUKOWSKI


quinta-feira, junho 18, 2015

Sossega coração! Não desesperes!


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, silente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa - 2-8-1933

terça-feira, junho 16, 2015

Lembranças


O que fica no depois
É tudo o que não foi
O resto foi consumido
Até a última gota

O que fica no depois
É o que já não há
E oque poderia ter sido
Sem salvação, também se teria findo

Esse depois que amacia a carne já dura
Que o tempo molda e embeleza a textura
É o sereno suave que cai
Na pele crua, gelada, nua!


Elzinha Coelho

sexta-feira, junho 05, 2015

Poetar


Que coisa louca, o de repente vir da mente e sair na boca
Tão de repente que aparentemente é coisa pouca... que coisa louca!
Ver no papel, transcrito o céu que tem por dentro
Ou o inferno que sem descanso te faz rebento... 

Ter o instante, antes distante, na ponta dos dedos
Dando formas, tecendo corpos de pensamentos
Sentir que nada, consegue ser nada um só momento
Te rasga a roupa, te abre o peito, te faz escravo

Tão de repente... que num instante, o distante já virou ato!
Que coisa louca...


Elzinha Coelho